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Stoner – John Williams [Resenha]


Lateral Stoner

Stoner é a história da vida de um homem entre as décadas de 1910 e 1950: William Stoner, filho único de camponeses humildes, quase por acaso descobre sua paixão pelos estudos literários e se torna professor universitário. Em uma prosa linear e límpida, narram-se o progressivo afastamento de Stoner da própria família, as relações complicadas com os colegas, as amizades tragicamente marcadas pela guerra, a difícil vida conjugal, o impossível amor clandestino por uma professora mais jovem e o encontro com a morte.


Stoner

“O amor pela literatura, pela língua, pelo mistério da mente e do coração mostrando-se nas pequenas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, nos caracteres negros e frios impressos sobre o papel.”

Stoner foi escrito por John Williams e publicado originalmente em 1965, mas chegou ao Brasil somente em 2015. O livro conta a história de William Stoner, um garoto nascido e criado em uma fazenda no interior de Missouri, que depois de terminar a escola, recebe a oportunidade de estudar Ciências Agrárias na universidade, uma chance que seus pais não tiveram e nem passava pela sua cabeça.

Já na faculdade, William Stoner acaba descobrindo a literatura e se interessando cada vez mais por ela, trocando eventualmente de curso para estudar Letras e Literatura. O livro segue a vida de Stoner desde o momento em que ele entra para a universidade, o acompanhando até o dia de sua morte, narrando sobre sua vida como professor, seus estudos, seu casamento, suas amizades, intrigas e sua relação com a filha.

Livro Stoner

A história me lembrou um pouco de O Encontro Marcado de Fernando Sabino, que também narra a vida cotidiana do protagonista, mas ambos fazem isso de tal forma que o dia a dia dessas personagens nos prendem e fazem com que fiquemos torcendo para que o melhor aconteça.

John Williams reflete eu próprio amor pela literatura e pela academia em Stoner, que leciona na mesma universidade e área que o autor.

Logo no primeiro parágrafo do livro, já é contado que Stoner se torna professor na universidade, nunca subiu na carreira além de professor assistente e que poucos de seus alunos se recordavam dele após cursar suas cadeiras. E é essa vida medíocre da personagem que encanta tanto.

Recebemos o relato de uma pessoa perfeitamente normal, mas o autor faz isso de forma impecável. Stoner parecia viver em um estado de insatisfação onde ele havia perdido o controle ou apreciação por sua própria vida. A conformidade e a aceitação dessa insatisfação o fizeram viver como se sua vida não lhe pertencesse, seguindo no caminho em que os outros o colocavam.

“Via-se perguntando a si mesmo se sua vida valia a pena ser vivida. Se alguma vez valera. Era uma pergunta, suspeitava, que mais cedo ou mais tarde ocorria a todos os homens. Mas se perguntava se ocorreria aos outros com tamanha força impessoal como viera a ele.”

Introdução StonerAo longo do livro aparecem diversos conflitos, tanto no trabalho como em sua vida doméstica, e devido a sua conformidade, acaba perdendo seu espaço próprio em ambos. Um dos pontos que mais me prendeu no livro foi ver os pontos exatos onde a vida de Stoner tomou cursos diferentes do que ele queria e como ela poderia ter sido totalmente diferente caso pequenas coisa houvessem acontecido de outra forma, normalmente dependendo exclusivamente de uma reação dele próprio.

No âmbito do casamento, o livro reflete a época em que foi lançada. A forma como Stoner conhece sua esposa e as cobranças a eles em relação a isso. O autor também aponta problemas na criação de Judith, esposa de Stoner.

“Quando foi conhecendo-a melhor, ficou sabendo mais de sua infância, e acabou percebendo que ela era parecida com a maioria das meninas de sua época e circunstâncias. Sua educação se fundava na premissa de que alguém iria sempre protegê-la dos eventos torpes que a vida poderia empurrar em sua direção, e, em troca, ela não tinha outro dever que o de ser um gracioso e prendado acessório, pois pertencia a uma classe social e econômica para a qual a proteção era quase uma obrigação sagrada.”

Como a história acompanha Stoner, não podemos ter acesso aos sentimentos de Judith, mas dentro dessa limitação, a situação e sentimentos dela são apresentados através de seu comportamento ou relacionamento com a família, demonstrando sua insatisfação e os efeitos disso.

O livro foi publicado pela Rádio Londres e conta com uma capa dura, folhas amarelas e uma ótima diagramação. A narrativa tem uma linguagem simples e além de narrar os fatos, nos conta sobre os sentimentos de Stoner. Embora ele seja a única personagem com maior importância, vemos personalidades diversas cruzando em sua vida e o afetando de alguma forma.

“Ah, como parecemos corretos para nós mesmos quando não temos razão para deixar de agir corretamente!”


Capa StonerDetalhes

Título original: Stoner

Autor: John Williams

Tradução: Marcos Maffei

Gênero: Ficção

Páginas: 314

Editora: Rádio Londres

Publicação: 1965

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4 comments on “Stoner – John Williams [Resenha]

Gostei demais desse livro. Pena que li na primeira edição, antes de botarem capa dura e tudo mais, então estava cheia de erros de ortografia, gramática, escolhas estranhas na tradução… enfim, corrigiram isso? Espero que sim, o livro merece uma edição bem feita. Ainda quero ler em inglês. Gosto muito dessa linha do realismo americano, mais focado na vida das famílias de classe trabalhadora. Se você gostou de ler esse tipo de história, te indico Richard Yates, principalmente O Desfile de Páscoa, um livro fantástico sobre duas irmãs que tomam rumos opostos na vida e onde as escolhas de cada uma as leva. Outro dele, Revolutionary Road (traduzido como Foi Apenas um Sonho, por causa da adaptação que fizeram pro cinema), também é excelente, mas ainda prefiro O Desfile de Páscoa.

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Corrigiram sim! Não encontrei nenhum erro de ortografia e não notei problemas na tradução, acredito que tenham arrumado tudo já 🙂
Ainda não li nada do Richard Yates, mas vou anotar as recomendações aqui! Gosto bastante desse estilo de livro também.

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Clayci

Essa edição está linda né? Pretendo da uma chance para a leitura em breve.

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Sim! Ela tá muito boa mesmo, vale bastante a pena a leitura 🙂

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