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Porque sim não é resposta


Porque sim não é resposta

Que tal iniciarmos um diálogo e pararmos de aceitar normas sociais sem sabermos o porquê delas?

As regras sociais são passadas ao longo dos anos e os mais velhos, ditos mais sábios, ensinam as normas de bom comportamento aos mais novos, dos quais se espera que sigam elas a risca sem questionar. Porque esse é o correto.

“Falo isso pro seu próprio bem”

Existem alguns grupos de normas. As dos pais sobre como os filhos devem ser, as da escola de como o aluno deve se comportar e as dos amigos de como se deve agir para ser aceito no meio social. Muitas vezes essas regras se colidem, sendo impossível obedecer a todas. O que significa que algum deles vai reclamar/brigar/deixar de gostar de você. Porque você está pensando de forma errada.

Grande parte dessas normas de comportamento são herança de tempos antigos (onde elas podiam até fazer  algum sentido), e são seguida até hoje. Porque é o correto.

 

Antigamente, mulheres cuidavam dos filhos e dos afazeres da casa porque elas passavam o dia em casa enquanto os maridos trabalhavam fora, hoje é porque “isso é trabalho da mulher mesmo”. Basicamente: Porque sim.

Mas porque sim não é resposta. Não é, mas

“O que os outros vão pensar?”

Você não precisa gostar do seu emprego, só precisa que os outros acreditem que você gosta (trabalhando com algo que eles gostariam). Você não precisa ter muito dinheiro, só precisa que os outros acreditem que você tenha muito dinheiro (compre um carro que eles gostariam de ter, uma casa em algum bairro que eles gostariam de morar, viaje para algum lugar que eles gostariam de ir). Você não precisa se divertir nas férias, só precisa que os outros acreditem que você se divertiu (poste várias fotos no facebook). Resumindo: para você ser considerada uma pessoa feliz, você precisa que alguém sinta inveja e queira estar no seu lugar (o que acaba causando stress e depressão, mas a culpa é da sociedade atual que corre demais, não se preocupe com isso).

Desprezamos trabalhos que não seriamos capazes de fazer porque alguém decidiu que eles são inferiores. Desprezamos o trabalho de desenhistas, porque afinal, “é só um desenho, não é nada demais”, mas no dia que precisamos de um, não sabemos fazer. Desprezamos o trabalho de domésticas, porque “ela cuida da casa dos outros porque não sabe fazer nada”, mas quando temos que tomar conta de nossas próprias casas, chamamos uma diarista pra ajudar na limpeza, babá para cuidar dos filhos, levamos as roupas na lavanderia e almoçamos em restaurante. Mas tudo bem, porque temos educação, não somos como as domésticas que “não sabem fazer nada”.

Existe uma frase popular que diz que os pais nunca contarão aos filhos o que fizeram de errado quando tinham a idade deles. Até porque nem eram coisas erradas de fato, eram apenas diferentes para seu tempo e hoje são completamente aceitáveis (mas foram erradas para os pais deles).

Seus filhos não vão se comportar como você e não vão levar o mesmo estilo de vida que você escolheu, assim como você não se comportou como seus pais queriam e não seguiu o mesmo estilo de vida deles, porque os tempos mudam e as pessoas também.

Somos rápidos em dizer que algo é errado, mas muito lentos na hora de explicar o porquê.

“Isso é coisa de marginal”

“Isso é coisa de homem”

“Isso é coisa de mulher”

“Isso é coisa de pobre”

“Isso é coisa de criança”

“Isso é coisa de louco”

“Isso é coisa de negro”

“Isso é coisa de gay”

“Isso é coisa de lésbica”

“Isso é coisa de gente relaxada”

“Isso é coisa de gente preguiçosa”

(Se você não leu todas as frases acima em tom negativo e de julgamento, volte e leia-as assim).

Ou seja, antes de ter personalidade e gostos, precisa ler a cartilha de comportamento do seu “tipo de pessoa” e segui-la a risca.

“Seja você mesmo, quem gosta de você de verdade vai lhe aceitar como é”

“É importante estudar pra não acreditar em tudo que dizem”

“Tem que ter opinião própria, não pode ser maria vai com as outras”

Lembrando que:

Você mesmo: o que a cartilha de comportamento definiu que você é.

Não acreditar em tudo que dizem: não acreditar no que as pessoas que não seguem a cartilha dizem.

Opinião própria: opinião que a sociedade decidiu que é a correta.

“Você precisa casar! Como é que vai ficar sozinha?”

“Que horror! Tão nova e já está casando, podia ter estudado mais”

“Você vai acabar sozinha se não achar um marido logo, já está passando da idade, vai ficar tarde demais pra ter filhos”

“Você pensa que não quer ter filhos agora, mas espera daqui um tempo pra ver”

E a frase mestre pra fechar a saga de casamento e filhos:

“Na minha época não era assim!”

Mas na minha época, um casamento feliz é mais importante do que um casamento. É triste ver pessoas casadas há 30 anos que brigam diariamente e não estão mais casadas apenas porque gostam uma da outra, mas porque não aprenderam a viver sozinhas. Mas está tudo bem, casamento é assim mesmo.

É importante aprendermos a viver sozinhos. Saber do que realmente gostamos. Criar a nossa própria opinião antes de internalizar a dos outros.

Quantas coisas já foram condenadas no passado, quanta gente sofreu preconceito por algo que viria a ser totalmente aceito anos depois? Tatuagens, piercings, cabelos coloridos, saias acima do joelho, divórcio…

Coisas que soam absurdas hoje, como alguém deixar de ser contratado por ter tatuagens, era comum alguns anos atrás. A norma dizia que não se devia fazer tatuagens, então se você tivesse alguma, era socialmente aceitável questionar sua conduta mesmo sem lhe conhecer. Porque sim.

Ainda temos preconceitos socialmente aceitáveis, e continuamos sem uma boa explicação pra eles, e continuamos os mantendo, porque nos acostumamos assim. Fomos ensinados assim. Você ainda pode questionar a conduta de uma mulher que usa uma saia curta sem a conhecer. Porque sim.

Podemos auxiliar, aconselhar e dar exemplos, mas nunca seremos capazes de decidir por outra pessoa qual a melhor forma de ela ser feliz.

Os tempos não pararam de mudar, eles não estavam mudando antigamente para hoje se estabilizar na forma “perfeita” a qual chegamos. Ele está mudando, porque ainda não somos perfeitos. E porque sim não é resposta.

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18 comments on “Porque sim não é resposta

Erica Oliveira

É uma imposição tão besta, eu mesma sou dessas que ouvi direito “o que os outros vão pensar”, mas caramba, o que os outros vão pensar não é da minha conta! Quando as pessoas vão aprender a cuidar da própria vida e parar de impor? Quando elas vão aprender que posso escolher o que eu quero e não depende de ninguém pra isso?!!

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Parabéns pelo texto, foi uma ótima reflexão. Já fazia um tempo que eu vinha percebendo essas coisas e pensando nelas. Quantas vezes já não ouvi “isso é coisa de gente preguiçosa” quando propus uma forma mais rápida ou mais fácil de fazer alguma coisa, ou algo como “quando eu tinha a sua idade eu já fazia isso, isso e isso”. Sempre ignorando que a pessoa e o contexto e época em que ela vive são totalmente diferentes e que cada um tem suas aptidões e dificuldades. Fora a história do namoro e filhos, que já veio à tona algumas vezes para mim mesmo que eu só tenha 23 anos.
Realmente, se você não segue a “receita”, as pessoas não a consideram feliz, mesmo que você seja e viva dizendo que é.

Abraços!

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Simone Pinheiro

Existe toda essa mania de comparar as pessoas e de achar que números é mais importante, tipo achar que a pessoa que estuda, trabalha, já é casada e tem filhos está melhor que a outra que está apenas estudando, só porque já faz “mais coisas”, sem levar em consideração o quanto essas coisas fazer a pessoa feliz ou não

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Estou apaixonada pelo seu post! Eu nunca fui aquela pessoa extremamente questionadora, mas também nunca aceitei “porque sim” como resposta. Gosto de saber o porquê das coisas.
E realmente, tudo o que você citou eu já ouvi. Aqui em casa nem tanto, minha mãe sempre procurou/procura explicar os motivos das coisas. Mas fora de casa? Vi e vejo muito esses comentários.
Sem contar a parte de eu ser uma pessoa quieta. Ninguém entende (como se eles tivessem algo a ver com isso). Ano passado, por exemplo, eu não quis ir no baile de formatura da minha turma. “Isso não é normal pra sua idade”. Por que não é normal? Aliás, o que é ser normal? Essas ideias ultrapassadas cansam às vezes.
Enfim, as pessoas tem que parar de impor suas ideias aos outros, principalmente se não diz respeito a elas. E é verdade, porque sim não é resposta.

Beijos!! :*

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Simone Pinheiro

Já ouvi muito desse “isso não é normal” também. Nunca fui boa em gostar do que esperavam que eu gostasse, então era sempre a mesma história, mas nunca me deram uma explicação além do “não ser normal”, então sempre ignorei hahah

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Excelente post! É um pensamento antigo que foi passando de geração em geração, até que alguém resolveu parar para pensar ao contrário e questionar.
Sim eu sou daquelas que falava: o que os outros irão pensar?” Ficava preocupada em não conseguir ainda, ter alguém, senão iria “ficar para titia”, como se fosse o fim do mundo.
Aos poucos estou acabando com isso e vejo que nessa nova geração, são jovens que questionam muito as coisas e que continuem assim, querendo assumir a felicidade e se libertar!
O tempo passa e as pessoas mudam! Elas querem ser felizes sem serem aprisionados pela sociedade e sem ter a sensação de que são tratados como bonecos que se “vestem iguais” e tem pensamentos quadrados.

http://www.faseseestacoes.com.br

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Simone Pinheiro

Essa questão da aparência que você mencionou realmente se destaca bastante, porque cada vez estamos vendo mais originalidade, e é muito bom ver o pessoal perdendo o medo de julgamentos <3

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Você fez uma ótima crítica no texto, com ironias deliciosas de se ler!
Me identifiquei bastante com aquela parte sobre casar e ter filhos, porque não quero ter filho de jeito nenhum, e não vejo casamento como uma coisa indispensável para a vida. Na verdade, as pessoas casadas que eu conheço são bastante infelizes, e eu fico pensando que só continuam juntas porque foram condicionadas a pensar que “É assim mesmo. No começo é bom, mas depois você não quer nem olhar na cara da pessoa”. É claro que esse pensamento é só mais uma das regras da cartilha…
O que eu adoraria, de verdade, é que as pessoas algum dia se dessem conta de que não tem o menor direito de querer interferir nas vidas alheias, ou dizer o que é certo e errado e tentar impor o seu modo de vida como se fosse o único bom. Que não importa com quem os outros transam, como se vestem, o que fazem pra ganhar a vida, como se divertem, etc.
Adorei o post! Está de parabéns por abordar esse assunto. Continue assim!

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Simone Pinheiro

Que bom que gostou! Tenho a mesma opinião em relação a filhos e especialmente casamento, vejo tantos casais infelizes e no início me perguntava porque ainda estavam juntos, mas acabei percebendo que a grande maioria entende que é assim mesmo, tem que aturar a pessoa, porque casamento é pra vida toda. Tenho certeza que vamos nos livrar de vários problemas esquecendo essas normas 😀

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Eu estava precisando de um texto desses! Pois é, eu passei a minha vida toda ouvindo “Mas o que vão pensar?” e por isso deixei de fazer tantas coisas que eu gostaria, assim como “isso não é coisa de mulher” e lá se foram outras N coisas que eu poderia ter feito. Hoje, muito difícil me abalar e ligar pro que dirão. É muito triste, vivemos numa sociedade com limites, mas eu não quero esses limites na minha vida. texto maravilhoso!

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Simone Pinheiro

Fico feliz em saber que gostou <3 Acabamos deixando de fazer muitas coisas mesmo nessa função, mas é ótima a sensação de largar todas essas preocupações de lado e dar atenção apenas pro que pensamos/sentimos!

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Seu texto falou tudo de uma forma tão simples e completa! Minha vo repetia pra mim algumas coisas que ela tinha como máxima tipo; você não pode tatuagem, não vai ser contatada; ou, moça direita não anda com essa roupa, ou os gays não precisam ficar se beijando na frente de todo mundo né? E graças a Deus e a minha insistência e aulas diárias para ela, ela mudou completamente! Ela acha que eu tenho mesmo que estudar não casar, que os gays podem ficar onde quiserem e com quem quiserem porque são livres, e tantas outras cosias (menos a tattoo, pq ela nao gosta MESMO) ahaha então acho que nós precisamos mesmo tentar “salvar” essas pessoas, elas tem esses pensamentos porque outros incutiram eles na cabeça delas, mas se for pra mudar muda!
dezoitoemponto.com

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Simone Pinheiro

Que bom que você conseguiu conversar com ela e mudar o ponto de vista! Esse monte de cobranças acabam sendo tão limitadoras que deixamos de aproveitar muita coisa quando damos bola

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Quando li o título logo pensei em um quadro que tinha no Castelo Rá-Tim- Bum e realmente somos tão condiciados em certos assuntos que muitas vezes não nos questionamos do porque das coisas serem do jeito que são.

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Realmente todo mundo julga muito o próximo, principalmente pelas aparências, e a sociedade impõe muitos padrões, mas eu acho que cada um devia fazer o que o faz feliz, independente disso.

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Janaine Bagatini

Seu texto me lembrou o documentário Observar e Absorver – Eduardo Marinho.
Questione. Questione tudo e SEMPRE. <3

Amei o texto!

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Simone Pinheiro

Ainda não conhecia esse documentário, mas vou procurar para saber do que se trata!

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Amei, lembrei muito do que vi num seriado, é engraçado que pensar que hoje nós fazemos coisas que há um tempo atrás eram ilegais e hoje nós fazemos normalmente. Tudo o que é ilegal hoje amanhã ou depois pode se tornar legal e visivelmente aceito.

Seu texto é maravilhoso, parabéns

http://www.pinkisnotrose.com

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