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Passagem para a Escuridão: Livro I – Danilo Sarcinelli [Resenha]


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Noite após noite, as sombras travam uma batalha silenciosa pela alma do jovem príncipe Lúcio Dante. Há poucos dias de seu aniversário de dezoito anos, Lúcio se vê envolvido em uma série de eventos que o farão questionar tudo que sabe sobre si mesmo e sobre sua origem. Um atentado contra sua vida coloca a família real em estado de pânico, em especial às vésperas do regresso de seu tio César, o príncipe exilado. O fanatismo inconsequente de César levou seu pai, rei Augusto Dante, a bani-lo do reino e agora ele retorna, trazendo na bagagem um segredo capaz de mudar o destino da humanidade. A guerra contra os seguidores das trevas está para recomeçar e ambos os lados buscam seus reforços. Quando o sol se põe no paraíso, será preciso muita coragem para seguir em frente e enfrentar a escuridão.

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Passagem para a Escuridão – Livro I

Passagem para a Escuridão foi escrito por Danilo Sarcinelli e trata de uma história medieval fantasiosa, trazendo uma guerra silenciosa contra os adoradores das trevas, espiões infiltrados, emboscadas e muitas traições.

O livro se passa em um reino chamado Tibéria, e tem como núcleo principal a corte do reino e seus envolvidos. O protagonista é Lúcio Dante, neto do atual rei e embora o destaque fique com ele, as outras personagens não são deixadas de lado e, conforme necessário, ganham seus focos narrativos.

A história se passa anos depois de uma guerra travada entre o bem e o mal, onde demônios invadiram o mundo e por pouco não aniquilaram a humanidade. Foi graças ao deus Ravi e seu enviado que os demônios foram destruídos e o portão para o inferno selado. Isso faz com que a religião seja muito importante na vida das personagens, além de tornar a abertura do portão e a existência dos seguidores das trevas um medo constante.

Citação de Passagem para a Escuridão: "Despercebida, uma criatura levantou-se lentamente da piscina. Sangue pingava de suas garras e dos espinhos que saltavam das costas. O couro negro parecia repuxado sobre seu corpo esquelético, ossudo e encarquilhado. A besta horrenda saltou e se fez perceber com um rompante de violência."

Os pontos positivos

O cenário do livro é bem simples e a parte de fantasia é baseada em fatores aos quais já estamos habituados. Como a religião do local, por exemplo, que embora tenha um deus e história próprios, segue um modelo parecido com as que já conhecemos. Isso evita a necessidade de grandes explicações do universo e deixa o foco com o desenrolar da trama.

Como uma boa história medieval, conta com várias personagens, famílias gigantes e altos parentescos para lembrar ao longo do livro. No início tive dificuldade de identificar quem era quem, e acredito que uma árvore genealógica no início cairia bem. Mas mesmo com tanta gente participando, todos ganham importância em algum momento e participam do enredo ativamente sem cair no esquecimento, o que achei um ponto muito positivo.

Além do arco de Lúcio e seus amigos diretos, também acompanhamos o desenvolvimento da história de seu tio César, que fora exilado e está voltando para seu reino natal. Assim como dos envolvidos com a patrulha da cidade e os próprios conspiradores.

Como qualquer membro da realeza por demais adulado na juventude, César achava que sabia tudo sem nada ter estudado.

Uma série de eventos estranhos se manifestam no início do livro, e conforme os mistérios vão sendo desvendados isoladamente, a história vai se montando como um todo, o que dá um bom senso de urgência e não deixa o desenrolar cansativo.

A escrita do livro é simples e bem agradável, a leitura flui rapidamente e embora comece um pouco lento, logo a historia avança e ganha vida.

 

Citação de Passagem para a Escuridão: "Isso é uma luta e numa luta a única regra é: permaneça vivo a qualquer custo. Lutar com honra, só quando estiver vencendo. Caso contrário, faça o que for preciso para se manter vivo."

Os pontos negativos

Mesmo tendo gostado de toda a construção e trama do livro, não posso deixar de comentar alguns pontos que me incomodaram.

O primeiro são as personagens perdidamente apaixonadas. Parecia que todo mundo amava alguém desde sempre e morreria caso ficasse longe daquela pessoa, e em diversas situações tive dificuldade de engolir esse amor por não condizer com a realidade.

“De alguma forma, ele teria que esquecer a única mulher que já amou. Esquecê-la, porém, provava-se tão impossível quanto parar de respirar. Podia prender o fôlego por certo tempo, mas eventualmente o peito se incendiava, assim como as lembranças. A vida então se arrastava em suspiros. Parecia suspensa, à espera de uma definição ou de um novo significado.”

Na mesma semana em que terminei de ler, vi um texto do Sonhos, Imaginação & Fantasia que falava exatamente sobre como autores de fantasia escrevem romance que se encaixa feito uma luva nessa situação. No texto, Lais fala sobre 5 tipos de romances, mas tem um que eu gostaria de citar por estar muito presente no livro, que é quando a personagem não sobreviveria sem a pessoa amada:

“Ocorre quando dois personagens se amam tanto, mas tanto, que quando um deles morre ou o relacionamento termina, o outro fica irremediavelmente infeliz, a vida dele perde totalmente o brilho. Muitas vezes os pombinhos não conseguem ficar longe um do outro mais do que alguns minutos — ou seja, são totalmente dependentes um do outro. E o grande problema desse tipo de relacionamento é que ele não é nada saudável, mas nos livros é retratado como algo ultra romântico, com direito a choquinho quando se abraçam e mel escorrendo pelas páginas quando se beijam.”

Além de tudo, uma das personagens, alguns dias depois de receber um fora do grande amor de sua vida, descobre um novo grande amor de sua vida, que além do mais, era alguém que sempre estivera ali, ela só não havia percebido. E bem, não consegui simpatizar com o amor instantâneo, o relacionamento ou a situação de alegria imensa que entrou em cena de uma página para a outra.

A outra questão está nas mulheres. Todas elas parecem ser lindas e belas. Isso tanto as deixou muito semelhantes umas às outras como foi difícil de aceitar, visto que inclui uma mulher que treinava e deveria possuir musculatura, já saindo dos padrões de beleza. E outra que é descrita com “beleza rústica e olhos expressivos”, sendo mais tarde mencionado que ela tinha os dentes podres. Além de serventes do castelo, que mesmo vivendo em estado de pobreza, não parecem ter sua beleza afetadas.

“Diana era uma beldade de amendoados olhos cor de mel, cabelos dourados e um sorriso luminoso”

“Pandora havia crescido e se tornado uma flor. Não uma florzinha cultivada em jardim, mas uma beleza exótica, selvagem e livre.”

“Fayette d’Arcy, nesse sentido, era tida como o epítome da dama cortense, sempre linda, encantadora e elegante.”

“Fayette guardava uma beleza atemporal, com os lisos cabelos negros e o rosto delicado. Com beleza aristocrática e modos elegantes.”

“Seu sorriso tímido era cativante, um belo contraste com sua silhueta sensual. Lis era jovem e atraente, dona de um belo par de seios e uma cintura fina de vespa.”

“A moça devia ter dezessete anos, de corpo esbelto e peitos redondos.”

Já no caso de uma mulher em específico que era considerada feia, não faltaram esforços em destacar seus defeitos e colocar diversas personagens fazendo piadas ou se referindo a ela como “porca”, o que foi extremamente desnecessário, visto que a ideia de que não gostavam dela já havia ficado clara desde sua aparição.

Outra questão é que logo no início do livro nos deparamos com um discurso feminista um tanto quanto fora de época, e que poderia ter sido bem vindo, se não se contradissesse com a forma como as personagens foram apresentadas.

” ‘Os tempos são outros, mãe’, falou Diana, sem segurar a língua dentro da boca. ‘Nós mulheres podemos muito bem trabalhar e nos sustentar. Não precisamos mais de nenhum homem para isso. Papai disse que as mulheres já são permitidas até mesmo no exército e na guarda. Vai chegar o dia em que as mulheres casarão só se quiserem e com quem quiserem. Eu nem penso nisso. Meu sonho é entrar para o exército real e um dia chegar a general que nem o papai. Nós mulheres podemos e tenho certeza que…’ Diana travou ao perceber a mãe boquiaberta com seu desabafo e sorriu, sem jeito.”

A fala de Diana menciona que mulheres podem fazer parte do exército e da guarda, mas nenhuma aparece nessas posições durante a narrativa, o que me deixou com a impressão de que essa regra foi criada apenas para embasar o discurso da personagem e fortalecer seu arco, mas acabou esquecida depois, deixando sua fala ainda mais fora de época.

Embora o livro tenha algumas ressalvas, a leitura foi agradável e a história interessante, além de terminar com um ótimo gancho que me deixou ansiosa pela continuação.

Não havia vento a favor para quem não tinha direção.

Passagem para a Escuridão pode ser encontrado na Amazon e no Wattpad.

Avaliação: ⭐️⭐️⭐️


Passagem para a Escuridão: Livro IDetalhes:

Título original: Passagem para a Escuridão – Livro I

Autor: Danilo Sarcinelli

Gênero: Fantasia

Páginas: 226

Editora: Independente

Publicação: 2016

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