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Os Homens que Não Amavam as Mulheres: uma comparação entre o livro e os filmes


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Os Homens que Não Amavam as Mulheres (no original Män som hatar kvinnor), primeiro livro da série Millennium, foi escrito por Stieg Larsson e lançado em 2005. O livro recebeu duas adaptações para o cinema. A primeira foi sueca, Män som hatar kvinnor (no Brasil, Os Homens que Não Amavam as Mulheres), com direção de Niels Arden Oplev, estreado em 2009 com Michael Nyqvist e Noomi Rapace nos papeis principais. E a segunda sendo americana, The Girl with the Dragon Tattoo (no Brasil, Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres), com direção de David Fischer, estreado em 2011 com Daniel Craig e Rooney Mara nos papéis principais.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres

Como é de se imaginar, uma história de investigação com mais de 500 páginas e cheia de detalhes  não é facilmente adaptada para um filme. Larsson usa um estilo de narrativa jornalístico, não perdendo tempo em descrições e priorizando o relato dos fatos. Nenhum dos filmes conseguiu passar todo o livro para as telas, pois para isso seria necessário muito mais que três horas de filme. Para a comparação, vou focar nos pontos em que as adaptações se diferenciaram e no que isso afeta o entendimento geral da história.

A principal diferença é a possibilidade que o livro tem de expressar sentimentos e pensamentos, algo muito utilizado para Lisbeth. Embora ela tenha sido muito bem interpretada em ambos os filmes, o livro mostra mais que apenas uma garota revoltada. Além de Lisbeth não ser indiferente às pessoas a sua volta, o livro também mostra seus pensamentos por trás de suas frequentes respostas curtas.

Cena do filme "Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
Mikael e Lisbeth no filme americano.

As adaptações focaram em contar a história da investigação e foram fiéis nela. Além da investigação sobre estupros e assassinatos, o livro inteiro fala sobre a violência conta a mulher, tanto na história como nos detalhes. Começando pelas entradas de cada parte (ele é dividido em quatro), que mostram alguns dados sobre a violência na Suécia:

“Na Suécia, 18% das mulheres foram ameaçadas por um homem pelo menos uma vez na vida.”

“Na Suécia, 46% das mulheres sofreram violência de um homem.”

“Na Suécia, 13% das mulheres foram vítimas de violências sexuais cometidas fora de uma relação sexual.”

“Na Suécia, 92% das mulheres que sofreram violências sexuais após uma agressão não apresentam queixa à polícia.”

O livro também tem o recurso da árvore genealógica da família Vanger, que é apresentada logo no início e vem a calhar em diversos momentos. Além disso, cada capítulo inicia com data na qual ele se passa, facilitando o entendimento da passagem de tempo. Nos filmes só percebemos o tempo que passou quando no final chega o natal novamente.

 

As diferenças

Logo no início da história vem a primeira diferença. No julgamento de Mikael no caso contra Hans-Erik Wennerström ele é condenado a alguns poucos meses de prisão. Isso acontece tanto no livro quanto no filme sueco, mas foi retirado do filme americano. No livro, essa pena é cumprida logo depois que a investigação tem início, antes de Lisbeth se juntar a Mikael. Já o filme, deixou essa parte para o final, depois que terminam as investigações em Hedestad. Considerando que o ritmo dos filmes é bem mais rápido, era necessário alguma alteração para não quebrar o andamento da história. Embora a retirada da pena no filme americano não tenha interferido na história, o filme sueco conseguiu manter sem comprometer o ritmo.

Na saída do julgamento, há diversos jornalistas pedindo a Mikael algum comentário sobre o caso. Mikael já conhecia todos aqueles jornalistas devido ao trabalho, e o filme americano conseguiu passar essa ideia ao mostrar Mikael os endereçando pelo nome.

Cena do filme "Os Homens que Não Amavam as Mulheres"
Mikael conversando com os repórteres.

Dentre os detalhes deixados de fora na adaptação sueca, me chamou a atenção a falta de apresentação da ilha. A família Vanger é bem grande e um tanto quanto confusa, mas conhecê-los é importante para entender o curso das investigações. Tanto no livro quando no filme americano, logo que Mikael inicia a investigação, Henrik apresenta a ilha e a família, mostrando quem vive em cada uma das casas. Além do divertido momento em que explica quem não fala com quem, mostrando um pouco do quão complicada a família realmente é. Para quem não leu o livro, cair de paraquedas assim pode ser confuso.

Em seguida, no contrato que Henrik assina com Mikael, está declarado que ele escreverá um livro sobre Henrik e a empresa Vanger, e ele de fato o escreve no livro. A adaptação americana cita isso, mas é esquecido depois, enquanto no sueco foi totalmente ignorado. Essa desculpa existe para explicar para a família por que Mikael está na ilha, e ainda fazendo perguntas. Para não levantar suspeitas, quando pergunta sobre Harriet, diz estar escrevendo um capítulo dedicado a ela. O filme sueco também deixou passar batido as provas contra Wennerström que Henrik oferece a Mikael. Mesmo que no final elas se mostrem completamente inúteis, foram usadas como motivação para Mikael aceitar a proposta, enquanto no filme sueco foi apenas o dinheiro.

Depois que as investigações já estão bem avançadas e Henrik é internado, a família começa a se incomodar com as investigações de Mikael e passam a tentar afastá-lo. O filme sueco mostrou a publicação no jornal difamando Mikael, que fora claramente encomendada por algum morador da ilha. No americano, optaram por mostrar a morte do gato, que foi deixado esquartejado na porta de Mikael (opção com um peso bem maior). Mas ambas acontecem no livro também.

 

As relações de Mikael

Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Lisbeth e Mikael em cena do filme americano.

A vida pessoal de Mikael sofreu algumas alterações. Começando por Erika, sua colega de trabalho, com a qual ele mantém uma espécie de relacionamento. No filme sueco, ela aparece enquanto Mikael está trabalhando na revista, mas a relação dos dois não foi mostrada. Embora no americano ela seja mostrada, não se dá ao trabalho de explicar o relacionamento que eles têm. O filme deixa a entender que Erika trai seu marido com Mikael, enquanto o livro explica que o marido dela sabe do relacionamento dos dois e não se opõe.

A participação de sua filha também sofreu alterações. A importância dela para a história são os números da bíblia, que até então Mikael acreditava serem números telefônicos. Além disso, mostra um pouco do distanciamento deles, onde Mikael apresenta dificuldades em se reaproximar da filha. No filme sueco, ela foi completamente retirada. Quem percebe que a lista de números se tratava de versículos é Lisbeth, antes mesmo de se juntar à investigação, pois continua a visualizar os arquivos de Mikael em seu computador. Ela o envia um e-mail avisando sobre a descoberta assinado como Vespa.

Outro relacionamento que foi cortado de ambos os filmes é o de Mikael com Cecília Vanger. No livro eles mantém um relacionamento meramente sexual (iniciado por Cecília), que foi retirado de ambos os filmes. Como essa relação não contribui para as investigações, pôde ser retirada sem a necessidade de demais alterações.

 

 

A descoberta de Harriet

Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Martin, Henrik e Mikael em cena do filme sueco.

Harriet escapou da ilha com a ajuda de Anita, irmã de Cecília. e em ambos os filmes Anita está morta. No sueco, morreu de câncer de mama 20 anos antes de Mikael iniciar a investigação. No americano, em um acidente de carro, mas como no início do filme Cecília diz que sua irmã vive em Londres, significa que a família não sabia de sua morte (o que parece difícil de explicar, já que para isso precisariam falsificar muito mais que um passaporte).

Quanto ao paradeiro de Harriet, no filme americano ela vive como se fosse Anita, inclusive usando seu nome de casada. Tanto no sueco quando no livro, embora ela tenha usado o nome de Anita para sair do país, não manteve sua identidade. No livro Anita ainda está viva e é através dela que chegam a Harriet. O plano que Mikael e Lisbeth elaboraram (e é mostrado no filme americano) de grampear o telefone dela quando lhe contam sobre a morte de Martin, na esperança de que ela ligasse para Harriet, realmente funciona, e é assim que a encontram em uma fazenda na Austrália. No filme sueco eles encontram Harriet com a ajuda de Praga, o conhecido hacker de Lisbeth, que faz uma busca pelo nome de Anita.

 

Lisbeth Salander

Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Lisbeth Salander na adaptação sueca.

[Alerta de gatilho] A parte sobre Lisbeth contém assuntos sensíveis, para evitar, pule para o próximo tópico.

Quanto à Lisbeth, os filmes não chegam nem perto de representar toda sua complexidade. O filme sueco representou ela como uma pessoa violenta, mas não mostrou a parte mais frágil e principalmente humana. A forma como ela entra para a investigação também foi alterada, devido ao e-mail que envia a Mikael sobre os números bíblicos. No original, ela é recomendada por Frode, o advogado de Henrik, quando Mikael diz precisar de algum ajudante. Na adaptação sueca, Mikael comenta sobre o e-mail e Frode suspeita dela, fazendo com que Mikael se interesse em recrutá-la para o caso.

Um ponto importante no livro foram as partes após os estupros, onde mostra os pensamentos e sentimentos de Lisbeth de forma extremamente realistas. Embora o filme americano tenha separado alguns segundos para mostrar que Lisbeth sentia dores, o sueco não pareceu se importar muito com essa parte.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Lisbeth Salander na adaptação americana.

“Lisbeth Salander passou a semana na cama com dores no abdome, hemorragias no ânus e outras feridas, menos visíveis, que levariam mais tempo para curar. O que ela vivera ultrapassara de longe o primeiro abuso no escritório; não se tratava mais de um ato de coerção e de humilhação, mas de uma brutalidade sistemática.

Percebia tarde demais que havia subestimado Bjurman, e muito.

Tomara-o como um homem de poder que gostava de dominar, e não como um sádico total. Ele a mantivera algemada a noite toda. Várias vezes ela pensou que fosse ser morta, e houve um momento em que ele pressionou o travesseiro sobre seu rosto até ela quase desmaiar.

Não chorou.”

Outro ponto importante é o uso das palavras “estupro” e “abuso”. Desde o primeiro, que muitos não considerariam estupro por não envolver penetração, foi tratado como tal. E Lisbeth inclusive considera denunciar, mas chega a conclusão de que dificilmente sua palavra valeria mais que a de Bjurman.

“Se Lisbeth Salander fosse uma cidadã comum, ela provavelmente iria à polícia denunciar o estupro no instante em que deixava o escritório do dr. Bjurman. Os hematomas na nuca e no pescoço, bem como as manchas de esperma com o DNA de Bjurman em seu corpo e em suas roupas, teriam sido provas materiais pesadas. Mesmo que o advogado se esquivasse, alegando que ela concordou ou foi ela que me seduziu, ou foi ela que quis a felação e outras afirmações para as quais os estupradores apelam sistematicamente […]

[…] Aliás, denunciar o quê? Bjurman tocara-lhe os seios. Qualquer policial a examinaria com os olhos para constatar que, com seus peitinhos de menina, aquilo parecia improvável e, mesmo que houvesse acontecido, ela devia mais era se orgulhar de alguém tê-la tocado.

Seu círculo de amizades era bastante restrito e também não abrangia jovens de classe média protegidos por seus condomínios fechados do subúrbio. Desde a maioridade, Lisbeth Salander não conhecia um única garota que, pelo menos uma vez, não tivesse sido forçada a realizar algum tipo de ato sexual.”

No livro, Lisbeth mostra ter uma boa relação com mais duas pessoas além de Mikael. A primeira é seu antigo tutor, que é mostrado no filme americano mas ignorado no sueco. Além dele, há Armanskij, seu chefe na Milton Security, que tem uma longa parte do livro para falar sobre Lisbeth, as dificuldades de relacionamento dela com os colegas e sobre seu trabalho como investigadora.

 

Veredito

Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Mikael e Lisbeth no filme sueco.

O filme sueco deixou vários detalhes de fora e até alterou algumas coisas bobas. Por exemplo, a roupa que Martin usava nas fotos, que possibilitou que o identificassem no desfile de Hedestad. No original, ele usava o uniforme da escola, por isso o encontram usando a mesma roupa em duas fotos. No filme, foi alterado para um suéter azul. Embora seja possível que alguém use o mesmo suéter em situações diferentes e apareça com o mesmo em duas fotos, o uniforme simplesmente fazia mais sentido. A outra falha foi no final, quando Lisbeth vai ao banco retirar o dinheiro de Wenneström, que embora mostre ela indo ao banco em um disfarce, passa muito brevemente e não explica o que de fato ela estava fazendo.

Embora ambos tenham sido fieis quanto às investigações, o filme americano se destaca devido ao enfoque nos detalhes. Além disso, a atuação de Michael Nyqvist como Mikael deixa um pouco a desejar e, embora a atuação de Rooney Mara não supere a de Noomi Rapace, o filme americano conta com Daniel Craig, que conseguiu passar o mesmo Mikael dos livros para as telas, e com Stellan Skarsgård no papel de Martin. Acho relevante destacar uma das cenas finais, onde Martin explica a Mikael o que ele fazia e o porquê, onde Skarsgård conseguiu passar muito sentimento para a personagem e acredito ser uma das melhores cenas do filme.

A (grande) vantagem do sueco é que as continuações também foram adaptadas. Recomendo o livro inclusive para quem já assistiu aos filmes, pois a leitura não será chata mesmo sabendo o resultado da investigação. Quanto aos filmes, achei o americano bem superior por conseguir mostrar uma história mais rica e personagens mais elaborados.


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2 comments on “Os Homens que Não Amavam as Mulheres: uma comparação entre o livro e os filmes

Eu amo o filme, mas nunca considerei ler o livro. Depois desse post vou dar uma chance para os livros.

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Oi Anna!
Garanto que não vai se arrepender, embora sejam bem longos, a escrita é muito clara e a história é bem mais aprofundada!

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