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Desonra – J. M. Coetzee [Resenha]


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Desonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.

Companhia das Letras 


Desonra

Desonra se passa na África pós-apartheid, e em diversos momentos a diferenciação de raça, classe e sexo se faz bem presente. O livro acompanha David Lurie, branco, de meia idade, professor da faculdade, solteiro e divorciado duas vezes. Toda a história se trata, na verdade, de um grande choque de realidade para ele, mostrando o incrível crescimento da personagem, e ainda sua queda, perdendo tudo o que havia conquistado durante tantos anos.

No início, David se apresenta como uma pessoa detestável, demora até podermos simpatizar com ele. São as experiências pelas quais ele passa durante o livro que vão o afetando e mudando muitos de seus pontos de vista. Quanto às demais personagens, são todas incrivelmente humanas e com vivências bem diferenciadas.

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Nas primeiras 30 páginas, senti muita vontade de desistir do livro. Como não havia lido a sinopse antes, não sabia o que estava para acontecer. Embora seja uma parte desagradável da história, é o que dá base para o resto do desenvolvimento. David Lurie se envolve sexualmente com uma aluna que dá alguns sinais de que não quer ter aquele tipo de relacionamento com ele. Ignorando a vontade da garota, ele passa a persegui-la, ligando para ela sem parar, indo em seus ensaios de teatro e até aparecendo em sua casa sem aviso ou convite. Mas essa parte se desenrola de forma rápida até o momento em que David recebe o aviso de que uma denúncia foi feita à faculdade.

Após a denúncia, David é chamado para uma espécie de júri composto por professores da faculdade, que devem ouvir a história das duas partes e enviar uma recomendação aos seus superiores sobre as medidas a serem tomadas.

David não quer aceitar a opção de fazer um pedido público de desculpas ou de realizar um tratamento psiquiátrico, então durante a reunião, se declara culpado. Essa declaração, sem nenhuma tentativa de explicação, acabaria em sua demissão. Tentando ajudar o colega, alguns dos professores tentam convencê-lo a dar um depoimento justo e fazer um pedido público de desculpas.

Enquanto os colegas tentam ajudá-lo, falam que envolvimento com alunas era normal e que isso acontece com todo mundo. E é no meio desses comentários que David faz uma observação:

” ‘Nesse coro de boa vontade’, ele diz, ‘não ouço nenhuma voz feminina.’

Silêncio.”

Nesse momento, o ambiente extremamente machista em que ele está situado começa a se tornar claro. Em diversos momentos do livro, David faz comentários que reforçam esse ambiente e seu status nele.

“Ele não foi com a cara de Bev Shaw, uma mulherzinha atarracada, agitada, com sardas pretas, cabelo duro, cortado curto, e sem pescoço. Não gosta de mulheres que não fazem nenhum esforço para ficar bonitas. É uma resistência que já sentiu antes com as amigas de Lucy. Nada de se orgulhar: um preconceito que se aferrou nele, criou raízes. Sua cabeça se transformou em um refúgio de pensamentos velhos, preguiçosos, indigentes, que não têm mais para onde ir. Devia livrar-se deles, varrer tudo. Mas não se dá ao trabalho, ou não se importa mais.”

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Depois da situação se desenrolar e ele perder seu emprego, David decide passar alguns dias na casa da filha Lucy, que vive no interior e mantém uma fazenda. Passando mais tempo com a filha, ele começa a perceber alguns dos problemas que ela enfrenta. Lucy é uma mulher branca, dona de uma fazenda bem sucedida, é solteira e mora sozinha, e isso é uma afronta à cultura local, fazendo com que Lucy sofra preconceito de alguns moradores.

Desonra toma diversos cursos inesperados, e em vários momentos espera-se que os personagens ajam de forma diferente, realizem atos heróicos e cenas memoráveis. Mas isso nunca acontece, as reações são realistas e as soluções (ou falta delas) para os problemas também. E é esse realismo que deixa a história detestável em diversos momentos.

O crescimento de David é muito notável, e na verdade é disso que o livro trata, “a queda em desgraça” de David. E realmente, o quanto mais ele cai, mais a personagem amadurece. Ele passa a encarar situações que seu status anterior o permitia ignorar. A escrita do livro é simples e sem rodeios, e embora seja em terceira pessoa, mostra os pensamentos e sentimentos de David.


Detalhes

Capa do livro Desonra, de J. M. CoetzeeTítulo original: Disgrace

Autor: John Maxwell Coetzee

Tradução: José Rubens Siqueira

Gênero: Romance

Páginas: 248

Editora: Companhia das Letras

Publicação: 1999

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One comment on “Desonra – J. M. Coetzee [Resenha]

Lygia

Eu gostei muito do livro quando li, apesar de ser um tema pesado a leitura flui muito e dá vontade de não largar o livro pra saber sempre o que vai acontecer. Achei bem realista a narrativa mesmo, como você disse.

Beijos!

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