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César


Três meses. Foi o tempo que ele teve de paz. A casa vazia, em ordem, silenciosa. O que o incomodava era a sujeira, como ninguém aparecia para limpar, as contas e os jornais do primeiro mês, além dos panfletos de propaganda política atrás da porta estavam acumulados como o pó no resto da casa. As aranhas estavam começando a tomar conta e um dia até um rato ele viu passar pela sala. Um pesadelo. César tinha 73 anos, e vivia naquela casa há 38. Ele fora casado com Marisa, que morreu aos 65, sete anos atrás.

Um dia apareceram algumas pessoas, deste tipo que anda de terno em pleno verão, dizendo que estava na hora de dar um jeito na casa, já que ele não tinha herdeiros e sua esposa já era falecida.

Começaram levando os móveis. Quanto desespero. O guarda roupas herdado de seus pais. A cristaleira que fora presente de casamento. O sofá que ganhou dos sogros. A cama que compraram com as economias do ano. Tudo sendo levado. Primeiro tentariam vender tudo em bricks, e o que estivesse velho demais, iria para o lixo. Os móveis que lhe serviram por anos sem problemas, agora eram considerados velhos demais. Estão cheios de cupim, eles diziam. Tem muita coisa mofada. A umidade inchou a madeira. Ele gritava, esperneava, se abraçava nos móveis, pedindo para que não os vendessem, mas nada adiantava. Foram todos levados, a casa estava vazia.

Então os possíveis compradores começaram a vir, mas sempre encontravam defeitos. A casa em que ele viveu por anos, agora sendo tratada dessa forma. O telhado está velho, precisa trocar. O forro do quarto tem cupim, precisa trocar. Chão de assoalho é ultrapassado, precisa trocar. Precisa pintar toda a casa, a escolha de cores é péssima. As cores que Marisa tinha escolhido. A disposição dos quartos não é boa, as janelas ficavam para a frente, devia ter muito barulho e faltava privacidade. Talvez fosse melhor pôr tudo abaixo e reconstruir, a casa era antiga demais. E as reclamações continuavam. Ele vivera naquela casa, não conseguia entender as reclamações.

Depois de 7 pessoas entrando, vasculhando e colocando defeitos, finalmente a casa foi vendida. “Gente sem muita exigência” as pessoas de terno os chamaram.

Começaram as mudanças. A nova família era composta por um casal e uma filha. Marcos, Beatriz e Juliana, de 8 anos. Embora a menina fosse querida, gritava demais, fazia barulho demais. Acostumado com a casa silenciosa, aquele barulho e agitação o infernizavam. Beatriz trabalhava como engenheira civil, sempre contava sobre seu dia na hora da janta, onde estava trabalhando, o que estava fazendo, os problemas que estava enfrentando, tudo detalhadamente. Marcos era desenhista, trabalhava em casa e cuidava da filha quando ela não estava na escola.

Um dia, durante a tarde, enquanto César olhava pela janela da sala sentado no sofá, acompanhando o movimento dos carros, Juliana chegou perto dele com um quebra-cabeça, queria ajuda para montar. Ele nunca teve muita paciência com crianças, e como não teve filhos, não tinha experiência também. Mas valia a tentativa. Ele sentou com ela no chão e começaram a desencaixotar as peças. Juliana logo mostrou que não tinha habilidade nenhuma com aquilo, mas enquanto ela tentava encaixar peças que não se encaixavam, ele foi montando as outras. Ele se divertiu, na verdade, havia algum tempo que não fazia nada além de observar e reclamar. Depois de terminarem, ficou com medo de se levantar do chão por causa das dores nas costas, mas lembrou que não tinha mais dores. Juliana foi chamar seu pai, orgulhosa do trabalho que fizeram. Marcos ficou bem surpreso com o quebra-cabeça montado, disse que o estava guardando para quando ela fosse mais velha, pois achou que não tivesse idade o suficiente para montá-lo ainda. Como recompensa, encomendariam pizza naquela noite. César ficou feliz por ela, mas triste poe não poder aproveitar também.

César achava o gosto do casal para decorações péssimo, e seus móveis eram todos de segunda qualidade. Uma dia, resolveu rasgar uma das almofadas do sofá da sala, achou que davam um ar muito mórbido para a casa, a decoração era toda escura e de muito mal gosto. Eles culparam a filha pela almofada e a colocaram de castigo. Uma pena, mas nada podia ser feito. Depois disso, compraram almofadas novas muito mais bonitas, lembravam um pouco a decoração antiga da casa. Ele percebeu então que poderia começar a fazer algumas mudanças.

Começou com um arranhão discreto na cômoda, depois uma mancha no tapete. Alguns eles ainda culpavam a menina, e Beatriz culpava Marcos por não tomar conta dela direito. Mas ela estava comigo na cozinha, ele alegava, deve ter sido o vento. Ela dizia que o vento não derrubava copos, e que copos de vinho não deveriam estar na sala durante a tarde.

Depois de alguns estragos, Beatriz decidiu que seria melhor contratar uma babá enquanto Juliana estivesse de férias, para que Marcos pudesse se concentrar apenas em seu trabalho, já que não estava dando conta dos dois.

A babá era ótima, passava o dia com a menina, alimentava, dava banho, e todo dia vinha com alguma brincadeira recreativa nova. Às vezes Juliana puxava conversa com César, que começou a interagir mais com ela. Embora fosse uma criança, ele gostava de ter alguém para conversar. Ela gostava de falar sobre os desenhos que assistia e de cantar as aberturas. Brincavam de lego juntos, montavam espaçonaves e depois andavam com elas pela casa. Com a baba lá, não podiam mais fazer isso. Ainda podiam conversar, mas não mais brincar, o que o deixou um pouco aborrecido.

E o aborrecimento o deixou descuidado. Um dia, sozinho na sala, estava derrubando um dos quadros de arte moderna que Marcos tanto adorava quando a babá entrou na sala a tempo de ver o quadro despencando da parede. Com o barulho, Marcos veio correndo de seu escritório ver o que tinha acontecido, achando que alguém pudesse ter se machucado. Ao ver seu quadro no chão partido ao meio, entrou em desespero, perguntando o que tinha acontecido. A babá deu a explicação que tinha, ela entrou na sala e viu o quadro caindo da parede sozinho. Marcos a culpou por estragar seu quadro, é claro. Você não sabe quanto custa um quadro desses, ele gritava, não existe outro igual, era um trabalho único.

César passou então a se sentir culpado por ter feito a babá perder o emprego, ela era realmente boa em seu trabalho, e Juliana ficou sem ganhar os bolos que ela fazia durante a tarde. Para compensar pelo erro, ele passou a fazer companhia a Juliana enquanto seu pai trabalhava.

Contou a ela sobre como conheceu Marisa e sobre seu antigo emprego na estação ferroviária. Ela disse que queria trabalhar no corpo de bombeiros, queria salvar os bichinhos que ficavam presos nos prédios em chamas e ajudar os gatinhos presos nas árvores altas. Ele achou interessante a observação dela sobre os animais, ao invés de pensar nas pessoas.

O período de férias escolares estava quase acabando e logo Juliana voltaria às aulas, e como estudava em turno integral, César ficaria sem companhia. Ele resolveu então passar mais tempo com Marcos. No início, só ficou sentado em sua sala o observando trabalhar. Ele gostava de cantar enquanto desenhava, escutava Bee Gees e Queen na maior parte do tempo.

Haviam vários desenhos e anotações presos em um mural na parede, era um escritório realmente interessante. Às vezes ele falava sozinho, o que permitia que César entendesse em partes o que ele estava fazendo, conseguiu entender que estava participando de um projeto grande que tinha mais algumas pessoas envolvidas, se tratava de uma história em quadrinhos sobre um grupo de amigos que, ao sair para beber um dia, encontram um vagão de trem abandonado em um sítio logo na saída da cidade, e então passam a se reunir lá dentro. Com o tempo conseguiram uma corrente e cadeado para trancar o vagão, passando a ser os únicos a poder entrar, começam então a levar coisas pra lá, levaram copos, algumas garrafas de vinho, um cooler, e até alguns petiscos prontos. Com o tempo, algumas coisas começaram a mudar, perceberam que o tempo passava de forma diferente enquanto estavam dentro do vagão, um dia saíram de lá e tinham se passado 4 dias no mundo de fora. Seus pais estavam apavorados e a polícia já os procurava, isso se repetiu algumas vezes enquanto eles tentavam entender o que estava acontecendo, até que uma vez se passaram 30 anos e quando saíram, já eram considerados mortos, então entraram em uma discussão sobre reaparecer e retomar suas vidas ou conseguirem novas identidades. Seria complicado explicar como continuavam com 20 e poucos anos quando deveriam estar com 50 e poucos. César ficou curioso para saber o final, mas a história não estava pronta ainda.

Um dia o telefone toca e Marcos parece assustado enquanto fala, ele primeiro pergunta o que aconteceu e então diz que irá o mais rápido possível, saindo de casa com pressa. Aproveitando o tempo sozinho, César resolveu mexer nas anotações de Marcos, tentando descobrir mais sobre a história. O que conseguiu encontrar foi que ela estava sendo escrita por outra pessoa, um tal de Roger, ele escrevia e Marcos desenhava. Além disso, vasculhando pelas gavetas, encontrou também alguns álbuns de fotos. Dois, na verdade. Algumas fotos de família, uma ou outra de alguns aniversários e era isso, não havia nenhum momento memorável, nenhuma viagem interessante, nenhuma apresentação de Juliana em algum festival da escola, nada.

Quando Marcos voltou para casa, trazia Juliana com ele. Ela estava emburrada e seu rosto demostrava que esteve chorando, ele resmungou alguma coisa sobre ela ficar sem televisão pelo resto da semana e que Beatriz teria uma conversa com ela quando chegasse. Juliana foi para o quarto e se deitou, triste. César foi atrás dela preocupado perguntar o que havia acontecido, ao que ela contou sobre uma briga que teve no colégio, um colega implicava com ela fazia algum tempo e mesmo após reclamar para a professora, nada foi feito. Então nesse dia Juliana havia jogado uma cadeira no colega, que acertou seu rosto e fez com que o garoto precisasse levar três pontos perto da sobrancelha direita. César ficou bem irritado com a situação, não era Juliana que deveria estar de castigo, mas o menino. Ele esperou Beatriz chegar para ver qual seria sua reação, que foi a mesma de Marcos, ela ficou brava, dizendo que a solução era ter reclamado com a direção, ao invés de agredir o menino.

Eles discutiam enquanto jantavam, Beatriz e Marcos falavam em ir na direção reclamar da falta de supervisão das crianças e que Juliana precisaria se desculpar com o menino, ao que ela se mostrava extremamente descontente. César estava muito incomodado com a situação toda e resolveu ignorar a discrição derrubando tudo que estava na mesa. Foram pratos, copos, tigelas, tudo para o chão, a louça toda quebrada, a comida espalhada por todo lado. Foi um caos. Todos levantaram assustados. Marcos e Beatriz voltaram a discutir, mas dessa vez sobre o que tinha acabado de acontecer, ao que Juliana disse que ele tinha ficado bravo, apontando para César. Sua mãe a informou que não havia ninguém ali e que ela não tinha mais idade para esse tipo de brincadeira. E pela surpresa de Juliana, ela parecia não ter percebido ainda que César não era um morador da casa como eles.

Depois de desistir de tentar entender o que aconteceu, ligaram para a diarista, pedindo que ela comparecesse no dia seguinte, pois tinha acontecido um acidente na cozinha. Então mandaram Juliana ir para o quarto, pois estava de castigo. Beatriz preparou um café e foi assistir televisão no quarto, enquanto Marcos trabalhava mais um pouco.

Com o tempo, César começou a perceber que aquela família era bem diferente da sua. Eles não passavam muito tempo juntos, nem nos finais de semana, normalmente tinham atividades separados. Além disso, Beatriz demonstrava grande descrença quanto ao trabalho de Marcos, dizia que aqueles desenhos já não traziam mais lucro, que estava na hora de ele arranjar um emprego de verdade, aquela mesma história de sempre. E ele realmente não estava ganhando o suficiente para se manter sozinho, durante um tempo ele trabalhou com uma empresa de publicidade, mas a empresa fechou e desde então ele queria trabalhar com histórias em quadrinho, mas não estava tendo sucesso algum.

No dia seguinte, antes de sair para trabalhar, Beatriz pediu a Marcos que fosse ao mercado, e entregou a ele a lista de compras. Ele dormiu toda a manhã e quando foi preparar o almoço, percebeu que não tinham quase nada de comida em casa e lembrou do mercado. Ele passou algumas horas fora de casa, provavelmente almoçou em um restaurante e então chegou em casa com as compras acompanhado de outro homem aparentando ter em torno de 30 anos e muito bem vestido. Os dois foram para o escritório e César, curioso, foi atrás. Lá Marcos mostrou o andamento de seu projeto e César descobriu que aquele era Roger, o autor da história na qual Marcos estava trabalhando. Roger olhou folha por folha não parecendo muito contente, colocou diversos defeitos, disse que a história não estava ficando clara e depois de uma grande discussão envolvendo o desenvolvimento da história e a falta de detalhes do roteiro que o haviam entregado, Roger acabou por ir embora dizendo a Marcos que só o chamasse novamente quando tivesse algum material de boa qualidade para apresentar, se não contataria outro desenhista para trabalhar com ele.

No final da tarde, depois de começar a refazer toda a história, Marcos resolveu sair para uma caminhada, e quando Beatriz chegou do trabalho, não havia ninguém em casa. Ela ligou a cafeteira e enquanto esperava o café passar, foi ao quarto de Juliana e constatou que sua mochila não estava lá, o que significava que ela não tinha ido em casa depois do colégio e estranhou eles terem saído sem avisar, pois a aula dela já havia acabado há duas horas.

O telefone tocou e ao atender, Beatriz ouviu a diretora da escola de Juliana com uma voz preocupada perguntando se havia acontecido alguma coisa. O que fez com que Beatriz perguntasse se havia acontecido alguma coisa. Juliana estava na escola ainda, ninguém foi buscar-la e não estavam atendendo o telefone até esse momento.

Beatriz correu para a escola, e quando voltaram, Juliana estava assustada e com os olhos inchados de chorar. Ao chegar, foi direto para o quarto. Beatriz começou imediatamente a procurar Marcos, que é o responsável por buscar ela na escola todos os dias. Ligou para o celular dele, que estava desligado, ligou para a casa dos pais dele, dos amigos… Ninguém tinha notícias, ou se tinham, não falaram.

Enquanto ela fazia as ligações e movia meio mundo atrás do marido desaparecido, César foi conversar com Juliana, que chorava no quarto. Ela disse que seu pai não havia ido buscá-la, que precisou esperar por duas horas e teve medo que ninguém fosse buscá-la, agora estava preocupada com o pai que havia desaparecido. César tentou consolá-la dizendo que não devia se preocupar, que estava tudo bem agora, ela já estava em casa e seu pai logo apareceria.

Acontece que seu pai não apareceu logo, ele apareceu na hora do almoço do dia seguinte. Beatriz não tinha ido trabalhar ou levado Juliana para a escola naquele dia, ficaram em casa esperando notícias. Para ele sumir dessa forma sem nenhum tipo de aviso e ainda deixar de buscar a filha, Beatriz já estava quase esperando ter que identificar um corpo naquele dia. Mas nada disso aconteceu, Marcos chegou em casa um pouco depois do meio dia, as cumprimentou e foi para o quarto se deitar.

Beatriz questionou sobre a noite anterior, onde esteve, se estava tudo bem, o que tinha acontecido. Mas Marcos não estava com vontade de conversar naquele momento, disse que estava cansado e que havia saído para beber com alguns amigos na noite anterior. Conversariam depois que ele descansasse. Uma longa discussão se seguiu, onde Beatriz perguntou de Juliana, o que ele tinha planejado, deixar ela na escola a noite toda? Ele responde dizendo que nunca quis uma filha, que isso foi ideia de Beatriz, então ela que devia tomar conta de Juliana. Com isso trancou a porta e foi realmente se deitar.

Antes de qualquer coisa, Beatriz foi para o telefone, ligou para a família dele, os amigos e todo mundo que estava preocupado para avisar que ele já havia voltado e estava tudo bem, depois explicaria o que tinha acontecido.

César ficou extremamente irritado com o descaso com o qual falavam da filha que naquele momento estava sozinha na cozinha. Enquanto Beatriz batia na porta gritando para ele abrir e Marcos gritava de volta para que ela o deixasse em paz, César derrubou a estante da sala, que fez um som enorme e acabou com a discussão.

Beatriz foi correndo ver o que tinha acontecido, e depois de um momento de susto, começou a juntar as coisas caídas e constatou que a televisão havia quebrado, além de alguns porta retratos e enfeites. Chamou Marcos para ajudar a levantar a estante, mas ele não se deu ao trabalho de responder. No final da tarde, depois te ter dormido um pouco e estar mais disposto, ele resolveu sair do quarto e viu a estante caída com a televisão quebrada, e foi novamente discutir com Beatriz, acusando-a de ter derrubado a estante para incomodá-lo.

No início, César não gostava muito de Beatriz, considerava ela muito antipática e pouco atenciosa com sua família, mas com o tempo, começou a simpatizar com ela, começou a entender porque o relacionamento deles não era bom, no final Marcos não era uma pessoa de fácil convivência.

Depois de reclamar, Marcos estava prestes a sair de casa de novo, disse que ia comprar algo para comer. Beatriz queria uma explicação para o que estava acontecendo e saber se poderia confiar que ele buscaria Juliana na escola no dia seguinte. Ele ignorou as perguntas dela e seguiu em direção à porta.

César resolveu interferir e quebrou a chave dentro da fechadura enquanto ele abria a porta, deixando todos trancados dentro de casa. Marcos ficou ainda mais irritado com a situação, achando que ele próprio tinha quebrado a chave devido ao stress. Ele gritou e deu um soco na porta, o que assustou Juliana, que voltou correndo para o quarto.

Enquanto Marcos esbravejava e gritava insultos para todo o lado, Beatriz disse para que ele chamasse um chaveiro para resolver o problema. Ele seguiu gritando e reclamando, começou a falar de coisas passadas, sobre a escolha da casa, onde ele não teve voz, na escolha da escola da filha, sobre a falta de motivação dela em relação ao seu trabalho, entre outras, a quebra da chave fez com que toda sua frustração transbordasse. Beatriz não respondeu nada, apenas pegou o telefone e foi para a cozinha. Lá pegou o computador e começou a procurar o número de algum chaveiro por perto. Enquanto ela fazia isso, Marcos tentava forçar a porta para abrir. Depois de encontrar o número do chaveiro, explicar a situação e pedir para que ele fosse lá, ela voltou para a sala e disse para Marcos que parasse de bater na porta se não acabaria estragando ela. Talvez eu deva arrombar ela, ameaçou Marcos. Talvez, mas você não vai, disse Beatriz, ao se retirar da sala novamente. Marcos passou por cima da estante que continuava no chão e foi atrás dela, não gostou do jeito que estava falando com ele.

O relacionamento deles realmente tinha diversos problemas que precisavam ser discutidos, mas Marcos escolheu um dia péssimo para isso. Ele estava irritado, queria sair de casa logo e estava preso ali na espera do chaveiro.

Juliana foi à cozinha para ver o que estava acontecendo. Ela chegou na porta e ficou parada, com medo de entrar, pois ainda estava assustada dos gritos e batidas. Beatriz notou ela ali e disse para que se sentasse à mesa que ela a prepararia um leite com achocolatado e um sanduíche. Marcos disse a ela que voltasse para o quarto, que agora não era um bom momento, eles estavam conversando. Beatriz o cortou, dizendo que não estavam conversando nada. Enquanto isso, ela se levantou e foi até a geladeira pegar o leite, que Juliana entendeu como um indicativo de que devia fazer o que a mãe havia mandado. Enquanto Beatriz preparava o sanduíche e Juliana se entretinha com a estampa da toalha de mesa, Marcos falava sobre seu trabalho, e sobre não receber apoio nem de sua própria esposa. Beatriz voltou a falar sobre a noite anterior, questionando sobre o desaparecimento dele e o descaso com Juliana, ela não queria falar sobre apoiar ou não o trabalho dele.

Marcos estava evitando o assunto porque não tinha realmente uma explicação para dar, ele saiu de casa porque estava frustrado e esqueceu completamente que devia buscar Juliana na escola, e quando lembrou já era tarde demais, por isso resolveu adiar a volta para casa até o dia seguinte, pois sabia que teria uma discussão. E essa discussão que ele tentava evitar estava acontecendo agora e o estava deixando muito irritado, especialmente porque o chaveiro estava demorando para chegar. Vamos deixar isso de lado, ele disse, vai voltar tudo ao normal, só vamos deixar essa discussão de lado. Comentário que Beatriz decidiu ignorar por completo e dedicar sua atenção a Juliana, perguntando se o sanduíche estava bom. O descaso o deixou mais irritado e perdendo o controle totalmente, ele jogou o prato com o sanduíche na parede e disse para Juliana voltar para seu quarto. Nesse ponto sua voz já tinha ultrapassado a tempos o tom normal. Vendo a reação agressiva de seu pai, Juliana ficou sem reação e não saiu do lugar, o que fez com que Marcos batesse na mesa e gritasse novamente, mandando-a ir para o quarto.

Juliana saiu correndo da cozinha e foi chorando para o quarto, o que resultou em uma série de reações: Beatriz pegou o copo em que estava preparando o leite e o jogou em Marcos, seguindo com uma série de xingamentos e César foi para a cozinha decidido a acabar com a briga e tirar Marcos de lá. Considerando que a porta ainda estava trancada, ele optou por pegar um dos cacos do prato quebrado e atacá-lo, cravando o caco em seu pescoço.

Embora César tivesse boas intenções e quisesse ajudar Juliana, sua reação não ajudou em nada, pois Juliana teve que ir morar com a avó depois que sua mãe foi presa. E os homens de terno voltaram à casa, junto com as pessoas que reclamavam do telhado e das janelas voltadas para a rua.

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