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Apagador


Naquele momento que você sente que há mais alguém na peça, acha que não está sozinho, é nesse momento que eles estão te observando, esperando por um momento de distração. Naquele momento que você está dormindo e acorda de repente, consegue sentir eles se afastando de você, talvez já tenham o tocado ou talvez tenha conseguido acordar na hora certa. São os pequenos detalhes que os mantém longe. Quando você encara o nada deixando claro que sabe que eles estão ali, a posição em que você dorme, sempre de frente para a porta. Dar as costas para a porta não é bom, eles infestam o quarto toda a vez. Sono profundo também não é bom, quando está muito cansado, você não sente eles se aproximando, e é quando conseguem tocar em você, e depois que fazem isso, se alimentam de suas memórias.

 

Às vezes eles só dão uma beliscadinha, você esquece onde largou suas chaves, esquece de um pacote de bolachas que estava na mochila. O problema é quando estão famintos. Se não tomar cuidado, qualquer dia pode acordar e não lembrar onde mora, o nome da sua mãe, sua profissão ou quem você é.

Amanda só percebeu a existência deles depois que seu pai lhe falou sobre, então notou que estavam sempre à espreita e que na verdade, nossa mente nunca apagava nada sozinha, era sempre eles. Por isso não temos memórias dos primeiros anos de vida, somos sucetíveis a eles. Os bebês ainda os percebem, se acordam de noite chorando, assustados. Mas não tem força para mandá-los embora, e nem sabem que precisam fazer isso, por isso choram, e quando alguém vem ajudar, não os mandam embora, por isso nos acostumamos com sua presença. Todo quarto tem um canto desocupado, e é ali que eles ficam, sentados, esperando, assistem você dormir na expectativa de pegar algo naquela noite.

O pai de Amanda se chamava André. Hoje é mais conhecido por Andrade. André trabalhava como pintor, e um dia, enquanto pintava uma casa, se distraiu olhando as nuvens. Quando se deu por conta, seu colega estava o cutucando preocupado.

— Cara, você está bem? Estou te chamando há horas.

— Que?

— Que nojo, você está todo babado, há quanto tempo está parado aqui olhando para cima?

Quanto tempo? Ele não soube responder. Na verdade não tinha certeza nem de onde estava, ou quem ele era. Quando olhou a placa na calçada que dizia “Andrade Neves”, seu cérebro de alguma forma assimilou que aquele era seu nome.

— Olá! Meu nome é Andrade, poderia me ajudar a encontrar minha casa? Parece que me perdi — seu colega não podia estar mais confuso.

— André, do que você está falando? Volta ao trabalho, temos que entregar essa casa ainda hoje.

— Não, mas essa não é minha casa, você está me confundindo com alguém, não sou esse André, mas ele deve ser muito parecido comigo — ele terminou a frase com uma risada, e parecia estar realmente se divertindo com seu comentário.

Depois de alguns minutos de confusão, seu colega percebeu que ele falava sério, e chamou uma ambulância. Quando a ambulância chegou, André ficou um pouco confuso, mas aceitou a carona quando disseram que o levariam para casa.

— Ah, muito obrigado, estou com um pouco de dor de cabeça, mal posso esperar para chegar em casa e descansar um pouco.

Quando entrou na ambulância, levou um susto, mas entrou mesmo assim.

— O que aconteceu com ele? — André perguntou.

— Com quem? — A paramédica perguntou um pouco confusa.

— Com aquele cara ali — ele disse apontando para o canto vazio da ambulância.

A paramédica por um momento considerou que André podia estar vendo espíritos. Era uma ideia doida, realmente, mas tanta gente alegava ver, não é mesmo. Ela tentou lembrar da última pessoa que havia morrido dentro da ambulância. O homem da casa incendiada.

— Essa pessoa que está no canto, é um homem em torno dos 40 anos? Cabelo preto bem curto?

— Não não. Não tem cabelo. Não sei nem se é um homem.

Na verdade o que ele via não parecia uma pessoa, embora fosse humanoide. Era alto, mesmo sentado no chão, sua cabeça chegava perto do teto da ambulância. Era muito magro também, não chegava a ser magro, era fino. Demais para poder ser uma pessoa. Ele era todo preto e liso, parecia uma roupa de látex, mas não era uma roupa, nem tinha brilho, era como se a luz simplesmente não chegasse até ali. Breu. Seus braços eram compridos, seus dedos deviam ser sete vezes o tamanho de dedos humanos, e eram pontudos. Sua cabeça era comprida também. Havia uma boca, que estava sempre sorrindo, com dentes gigantes. Gigantes e pontudos. Não havia nada que lembrasse um nariz, orelhas ou olhos. Mas mesmo assim ele parecia encarar, tinha seu rosto fixo em André e parecia se divertir.

Naquele dia, ele havia se divertido, sorria pois estava de barriga cheia. André se distraiu por muito tempo, e ele se aproveitou disso.

Naquele dia, André não via a hora de chegar em casa, mas infelizmente, ele nunca foi para casa. Ele foi para um hospital, e então para outro, e foi indo assim até ser levado para um hospital psiquiátrico. Lá lhe deram um quarto e ele ficou feliz por finalmente chegar em casa e poder descansar.

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2 comments on “Apagador

Me arrepiei 😮 foi tu que escreveu? INCRÍVEL! Fiquei até com medo dos cantos de casa kkk

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Simone Pinheiro

Foi sim! haha que bom que gostou <3

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